Pra começo de conversa, na minha humilde opinião, até agora esse é um dos melhores filmes dessa temporada de premiações.
Qual o tamanho do seu “mundinho”? Dos seus problemas? Seus sonhos, anseios e medos? E quão limitado você se torna em função das condições em que vive? E se você fosse vítima de um sequestro e vivesse durante 7 anos enclausurado num quarto de 10 m² sendo vítima de abusos freqüentes por seu sequestrador sem perspectiva nenhuma de salvação, com que olhos veria a vida e o mundo?
Essas são algumas das questões que “O Quarto de Jack" faz refletir, mas antes de falar sobre o filme um aviso: A carga emocional e o impacto são muito mais legais se você assistir sem saber muita coisa sobre o roteiro. Esse é um daqueles filmes intimistas em que as descobertas do espectador acontecem junto com as de seus protagonistas e isso torna o filme melhor ainda. Evite trailers, sinopses ou qualquer coisa do tipo e assista. Depois disso volte pra continuar lendo.
Sendo assim, se prosseguir é por sua conta e risco =)
Jack (Jacob Tremblay) está confinado a vida toda junto com a mãe (Brie Larson), como refém em um quarto. Ela foi vítima de um seqüestro que já dura 7 anos e após diversos estupros sofridos em seu cativeiro acabou engravidando. Ele, nascido nessa condição, jamais viu o mundo real e o conhece através de uma clarabóia no teto e da televisão, não sabendo distinguir o que é ou não real. A mãe tenta cuidar do filho da melhor maneira possível criando um universo particular com o pouco que tinha naquelas circunstâncias até que em dado momento ela começa a contar sobre o mundo real para Jack e tenta elaborar diversas maneiras de tirá-los daquele lugar.
No início, o quarto parece suficientemente grande para os dois e cheio de possibilidades, entretanto, conforme a situação se desenrola, o pequeno quarto fica cada vez mais claustrofóbico... mas a pegada do filme é outra. A atuação esplêndida da dupla Brie Larson e Jacob Tremblay nos joga na cara as questões psicológicas da mãe e do filho mantidos num cativeiro por anos e mais que isso: ligação umbilical que une os dois e num segundo momento é focado na forma como mãe e filho lidam com a nova vida.
Achei interessante o fato de o clímax ocorrer no meio e não no fim. Fiquei um pouco incomodado com isso enquanto assistia, mas resolvi continuar tão atento quanto e admito que me surpreendi. Parece que o foco do filme será a fuga da dupla, mas essa é apenas parte da história, pois não se trata, que fique claro, de um mero filme sobre seqüestro, mas sim das relações entre os envolvidos no drama. Esse é o grande trunfo dessa bela obra.
O diretor Lenny Abrahamson filma essa relação sempre de perto. Brie Larson, indicada ao Oscar de melhor atriz no papel da mãe Joy, de cara lavada no filme, demonstra bem o pânico e o peso dos sete anos em cativeiro o que realmente exige muito da atriz. Os “rompantes emocionais” são de cair o queixo e em vários momentos é difícil de segurar as lágrimas.
O roteiro foi adaptado pela própria autora, Emma Donoghue e confesso que pra mim o grande segredo de "O Quarto de Jack" é o seu roteiro. O filme é repleto de simbolismos e significados como a clara alusão ao “Mito da Caverna”. Chega a ser divertido procurar por eles. O longa remete muito à alegoria da caverna, à imaginação e o universo do sonhar mas também evidencia a extensão do trauma vivido pelas vítimas. Como falei ali em cima, o filme é dividido claramente em 2 atos: Antes de depois do quarto. E quando você pensar que não, mais surpresas aparecem.
A fuga não significa necessariamente libertação e é aí que entra o jovem Jacob Tremblay. A segunda parte do longa, é carregada por ele que merecia ter entrado na disputa pela estatueta. O garoto está fantástico. Admito que poucas vezes na vida eu tinha visto uma criança fazer um trabalho tão perfeito. Ele consegue exaltar as emoções daquele que teria a maior dificuldade em conhecer a liberdade, mas foi quem se adaptou melhor a dela. Uma das cenas mais lindas capta o olhar de Jack ao ver pela primeira vez o céu azul, trabalho excepcional também da fotografia muito bem feita.
O longa tem cenas de tirar a respiração, atuações fantásticas e um roteiro emocionante. Apenas na minha humilde opinião não existe um “final feliz” para esta história. O mundo real é tão assustador quando o quarto claustrofóbico em que os dois ficaram confinados. Aí, vai de o espectador julgar o quão libertadora é a liberdade em si, mas mais do que isso: pensar como as coisas seriam mais fáceis se olhássemos para nossos problemas com os olhos de uma criança e abríssemos mão de nossas zonas de conforto para explorar as grandiosas possibilidades que o mundo nos proporciona.
A diferença é que Jack e sua mãe estavam enclausurados contra sua vontade. Já nós, o fazemos por pura comodidade.







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